Publicidade comparativa – Por que a gente tem medo de fazer?

O mundo inteiro reconhece a criatividade da publicidade brasileira. É premiada em praticamente todos os festivais. Quando é para fazer a comparação de um produto contra outro, a história é bem diferente.

Eu sei que um dos problemas enfrentados é o CONAR – Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária – que atua para evitar que o consumidor seja enganado. Porém, o cliente ou agência que decide fazer publicidade comparativa, do modo correto, não está ferindo os limites éticos.

Mostrar e provar que o seu produto/serviço é melhor que o concorrente de forma clara e direta tem suas vantagens:

  1. Mostra que a empresa tem o conhecimento técnico sobre o seu produto/serviço e o dos seus concorrentes;
  2. Reforça as qualidades do produto/serviço perante o concorrente;
  3. Conquista clientes dos concorrentes e os que ainda não tomaram sua decisão de compra.

No exterior faz com que os concorrentes se mexam para provar que seu produto/serviço é tão bom quanto o que está sendo comparado. Quem não se lembra da guerra das “Colas”?

Por que não vemos mais publicidade comparativa? No meu ponto de vista é por uma questão de cultura. Dizer que é melhor que o outro é arrogante. Não fomos ensinados a valorizar quem é o melhor. Na escola quem é o mais esforçado e tira as melhores notas sofre bullying.

Uma marca dizer claramente que é superior a outra pega mal. Por isso, as empresas preferem fazer publicidade comparativa disfarçada, colocando seu produto/serviço em evidência e o concorrente, sem mostrar sua marca, como X. Isto não é comparar. É propaganda enganosa!

A Nissan soube explorar bem essa polêmica de superioridade com a campanha dos pôneis malditos. Quem não se lembra? Sua estratégia de usar a Internet foi brilhante e se transformou num fenômeno. Todo mundo só falava nisso.

 

 

O que era ótimo ficou melhor ainda com outros comerciais da marca fazendo comparações bem humoradas de seus concorrentes. O comercial da pick-up Nissan Frontier versus Toyota Hilux e VW Amarok é hilário.

Como não estamos acostumados com este tipo de publicidade, esses comerciais parecem ofensivos e vai contra a política da boa vizinhança. Invadir o terreno do outro e dizer que a sua grama é mais verde é pedir para ter sua campanha julgada no CONAR. A Nissan mesmo sabendo dos riscos colocou no ar mais essa campanha, com os correntes querendo matar seus engenheiros.

Quando eu estava procurando no Google os comerciais da Nissan, várias vezes apareceram o termo “marketing antiético”. Será mesmo que a Nissan foi antiética ou quebrou a regra da política da boa vizinhança?

Recentemente a Chevrolet lançou um comercial do Cruze Turbo e, de acordo com informações no comercial, fez um teste de arrancada controlado contra um carro da Mercedes Benz, com a marca disfarçada e sem dizer que modelo foi usado.

O Cruze leva vantagem em relação ao concorrente premium. Em outro comercial, a Chevrolet explora um opcional que seu carro oferece e o concorrente não: o assistente de estacionamento.

Ao ver o primeiro comercial com a prova de arrancada, eu coloquei em dúvida a veracidade do teste. Só que pelas informações que aparecem no comercial, o teste foi auditado, respeitando a regulamentação do CONAR.

Eu passei dias questionando o motivo da Chevrolet fazer uma campanha comparando de forma disfarçada com a Mercedes. Pesquisando para escrever este texto, eu li algumas matérias em sites especializados.

O que me chamou atenção foi o fato de elogiarem o carro, mas dizer que ele está longe de ser um carro premium. Qual a razão o pessoal do marketing da Chevrolet decidiu fazer um comparativo com um carro premium? (o termo é mencionado no comercial)

  • Será que foi mostrar que o Cruze possui um motor melhor que o do Mercedes?
  • Eles optaram por fazer um comparativo com a Mercedes para mostrar que não tem um concorrente nacional do mesmo nível?
  • Evidenciar a relação custo x benefício? O Cruze top de linha custa em torno de R$ 108 mil contra mais de R$ 140 mil do Mercedes.

Enfim, na minha opinião este é um exemplo de publicidade comparativa que não deixa claro a que veio. Como consumidores, nós temos que saber quais são as reais intenções das empresas quando elas fazem esse tipo de comunicação.

Eu gostaria de ver novamente as “brigas”, no bom sentido, de marcas disputando a nossa preferência. Nós, publicitários podemos fazer isso de forma criativa, fazendo que o mercado fique ainda melhor.

Um grande abraço,

Alecio Neto

 

A difícil arte do relacionamento

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Faz um bom tempo que muitas pessoas reclamam que não são compreendidas pela família, pelos amigos, no trabalho e, principalmente, nos relacionamentos amorosos.

O que poucos percebem é que cada vez mais estamos menos tolerantes. Exigimos demais dos outros. Queremos que tudo seja do nosso jeito. Criamos muitas expectativas e quando elas não são correspondidas terminamos o relacionamento.

Muitas vezes o motivo do término de uma relação, seja namoro ou casamento, não é tão sério. Eu soube de um caso que o marido pediu a separação porque a mulher não conseguiu suportar o pesado ambiente de trabalho e perdeu o emprego.

Acho bonito ver pessoas que mantém um casamento por quarenta, cinquenta ou mais anos, sem contar o tempo de namoro e noivado. Eles possuem uma sintonia tão grande que quando se olham parecem que estão conversando por telepatia.

Eu confesso que não sou perfeito, mas sempre acreditei que é conversando que a gente se entende. Sou uma pessoa tímida, mas quando tenho afinidade com alguém desando a falar.

Como muitos homens, eu não entendo as mulheres. Namorei uma médica e depois de um tempo, ela começou a reclamar que eu falava pouco. Em um dia muito frio, nós estávamos sentados na praça de alimentação de um shopping e ela pegou na minha mão e disse:

– Por que você está tão calado? – eu segurei sua mão mais forte, me aproximei do seu lindo rosto e tomei coragem! Abri minha boca, mostrei a minha língua e disse:

– Aaaaaaaaaaa.

Levei uma bofetada tão forte que quase caí da cadeira. Ela foi embora pisando duro e nem olhou para trás. Eu só queria mostrar a minha garganta inflamada e saber se ela podia falar o tratamento para curar a minha amidalite.

Engraçado, né? O problema de todo relacionamento é que sempre escolhemos pela simpatia. Nem sempre o quê ou com quem simpatizamos faz bem para a nossa vida.

Para um relacionamento dar certo nós precisamos aprender a ter empatia, que significa nos colocar no lugar do outro. Entender o que ele está sentindo para saber lidar em todas as situações. Se eu soubesse disso antes, não tinha ganho cinco dedos no meu rosto.

Um grande abraço,

Alecio Neto

A diferença entre escutar e ouvir

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De tanto escutar os outros e pouco me ouvir, eu levei um bom tempo para entender a diferença entre um e outro.

Quando se escuta, a maior parte do que é dito entra por um ouvido e sai pelo outro. É como naquele truque de mágica de passar um lenço de uma orelha a outra. A menor parte do que a pessoa está tentando dizer, nós usamos alguns mecanismos para filtrar, pré-julgamos e temos a resposta na ponta da língua, interrompendo a conversa no meio.

Pensamentos surgem como num passe de mágica, que nada tem a ver com o assunto como “Peço pizza de calabresa?”, “Lá vem ele com essa conversa de novo!”, “Preciso comprar miojo!”, “O que ela estava dizendo mesmo?”. Aí balançamos a cabeça, às vezes de forma positiva, outras de forma negativa e fazemos caras e bocas. Ainda tem aquele que nem pisca e, provavelmente, devem estar cochilando de olhos abertos.

Quando se ouve, praticamente tudo que é dito entra pelos dois ouvidos passa pelo coração e cérebro. Apesar de sermos considerados racionais, somos movidos por nossas emoções. Temos que prestar atenção no que a pessoa está dizendo, o modo como ela se expressa, seus gestos e comportamento.

Com treinamento adequado, muitas vezes nós conseguimos estar no lugar do outro. Somos capazes de compreender seus sentimentos como tristeza, raiva, frustração, mágoa, rancor. Todos os sinais daqueles que precisam de ajuda.

Ouvir também tem seu lado positivo. Quantas vezes alguém nos disse “Ouça essa música!”, “Parabéns! Você fez um ótimo trabalho!”, “Eu te amo!”, “Faz tempo que a gente não se fala!”, “Estou com saudade!”, “Você me faz um bem!”, “Que bom te ver!”, “Você está linda!”, “Você é sensacional!”, “Deixa que essa eu pago!” (essa é uma pegadinha e você prestou atenção no que eu falei).

Nós precisamos aprender a parar de dizer “Escuta aqui!” e “Sabe com quem está falando?”, com aquele tom de voz de irritação de pais nervosos e chefes surtados. Temos que começar a dizer “Você tem um minuto para me ouvir?”, com um tom de voz mais amistoso, calmo e objetivo mesmo que o assunto seja sério.

Todo mundo tem razão. Agora saber quem está certo ou errado é outra questão. A resposta para isto é que os dois lados consigam falar a mesma língua para que um ouça o outro. Nós precisamos explicar nossos pontos de vista de forma clara, sem julgamentos, sem competição, sem sentimentos de mágoa ou rancor. Quem ouve fala menos e quando abre a boca é para esclarecer alguma dúvida, faz perguntas do tipo “O que você está me dizendo é que…” e usa expressões do tipo “Deixa ver se eu entendi? Nós temos que…”. Encontrando pontos em comum, nós sempre teremos muito que conversar.

O banheiro é um dos lugares da casa com uma das melhores acústicas. Se você quiser pode treinar e ver a diferença entre escutar e ouvir. O máximo que pode acontecer é o seu vizinho começar a prestar atenção no que você está dizendo. Dependendo do que ecoar do seu banheiro, seu vizinho pode passar a cumprimentar você e até convidar para um churrasco.

Um grande abraço,

Alecio Neto

Meu teste vocacional daria Crítico de Tudo

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Dizem que crítico é aquela pessoa que não deu certo em alguma profissão e passa ganhar a vida colocando defeitos em tudo. Até pouco tempo eu sou cara o certo para a vaga. Passei boa parte da minha vida afiando a minha visão crítica. Nada era perfeito para mim, tudo tinha defeitos, principalmente, as pessoas. É muito difícil viver num mundo insatisfeito.

Na sexta-feira passada, eu estava assistindo o Hora Um, na Globo, e vi a matéria sobre o fenômeno Pokémon Go. Mal o repórter explicou como funcionava o jogo e já veio o pensamento “Alguém vai ser atropelado jogando!”. Um segundo depois aparece a imagem da menina americana que tinha sido atropelada. Logo em seguida, a reportagem mostrou casos de outras pessoas machucadas.

Eu não fiquei feliz com o meu pensamento, por mais que ele estivesse certo. Claro, que o jogo pode causar acidentes para os mais desavisados, mas eu deixei de ver o lado positivo do aplicativo. Como os jogos do Wii, o Pokémon Go faz gente a andar, deixando o sedentarismo de lado.

Por que eu não fiquei feliz com o meu pensamento crítico? Porque há pouco mais de um mês, eu comecei a ler um livro chamado Inteligência Positiva do autor Shirzad Chamine. Ele é um coach respeitado, nos EUA, que desenvolveu uma linha de estudos sobre os nossos pensamentos.

As suas pesquisas descobriram que para uma pessoa ou um grupo ter alta performance, numa escala de 0 a 100, deve pensar de forma positiva 75% do tempo. No site da Editora Objetiva tem um teste que você pode fazer – www.objetiva.com.br/testeinteligenciapositiva.

O assunto é bem interessante. Eu já ouvi falar diversas vezes sobre autossabotagem e como isto afeta as nossas vidas. O autor aprofunda mais e explica que para sobreviver, o cérebro cria sabotadores e usa-os para que a gente não se arrisque. Shirzad Chamine fala que o principal é o Crítico e atua com outros como o Inquieto, o Controlador e o Insistente, por exemplo.

Agora todas as vezes que tenho um pensamento negativo, eu analiso e vejo se não é o Crítico atuando. Pode parecer estranho à primeira vista, mas eu percebi uma diferença na minha postura e, por consequência, nas minhas atitudes. Passei a ficar menos estressado, menos frustrado e mais confiante.

Aumentar a inteligência positiva traz muitos benefícios. Aos poucos, eu estou cobrando menos de mim, policiando menos meus pensamentos e atitudes. Estou deixando o Crítico de lado na hora de escrever para que as ideias fluam com mais rapidez. Tenho mais consciência de como fazer o meu trabalho sem a ansiedade e o pensamento “acho que isto não vai dar certo” e “o que os outros vão pensar?”.

Shirzad Chamine deixa claro em seu livro que não vamos conseguir eliminar o Crítico e seus sabotadores do cérebro. Nós podemos enfraquecê-los a ponto de não atrapalhar as nossas vidas. A meu ver, um mínimo de pensamento crítico é bom para a gente evitar correr riscos desnecessários, como não olhar para os lados antes de atravessar a rua caçando um Pokémon.

Um grande abraço,

Alecio Neto

Pare de perseguir a meta

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Eu já tive várias na vida e ainda tenho muitas que gostaria de atingir. De uns tempos para cá eu estou questionando a importância de se perseguir uma meta. Antes de escrever este artigo, eu pesquisei no Google o significado (talvez não seja o correto, mas me chamou muito a atenção).

De acordo com a pesquisa, Meta significa “entre os antigos romanos, sinal na pista dos circos que os carros deviam contornar” e “marco que indica o termo de uma corrida de cavalos, de uma regata etc”.

Eu sempre considerei que na vida precisamos ter objetivos, um norte a seguir. É bom pensar e montar um plano e segui-lo. No meu caso, eu sempre preferi os grandes planos e as grandes metas. Quanto maior o esforço, maior a recompensa.

Hoje eu aprendi que para se conquistar algo considerado grande é preciso ter uma série de pequenas vitórias diárias. Por isso, eu falhei diversas vezes ao perseguir minhas metas. Por querer a todo custo atingir minha meta, como na definição citada acima, eu corria contornando na pista perseguindo meu adversário.

A meta era o meu adversário a ser vencido. Por ser um grande adversário, eu não estava preparado para derrota-lo. Pelo contrário, ele me vencia sempre. O resultado era o inverso do que eu esperava. Se eu queria emagrecer, ganhava muito mais peso. Um emprego melhor, não aparecia a vaga. Nem preciso falar quando o assunto é dinheiro.

Literalmente eu corria em círculos. Com as minhas metas colocando uma volta sobre mim. Agora eu sei que não posso mais brincar de polícia e ladrão com a minha meta. Ela é especialista em fuga.

O que tenho a fazer é criar um bom plano, onde minha meta me leve aonde quero ir. É fundamental encontrar as formas que possam tornar isto realidade. Uma delas é tratar minhas metas como aliadas dos meus planos.

Todo aliado está disposto a ajudar. Ele quer uma prova de confiança. O discurso tem que ser condizente com a atitude. Cada passo tem que ser dado na velocidade certa. Quando a meta é estabelecida, ela ganha vida e começa a andar. Neste momento não dá para ficar parado.

Claro que toda meta tem que ter um tempo determinado para ser cumprida. Colocar um prazo a mais não significa que vai atrasar. Pode ser que no percurso tenha algum obstáculo e ter uma margem de segurança é essencial.

Por enquanto eu deixei minhas grandes metas de lado. Fiz um acordo e pedi uma trégua. Eu estava me sentindo como o Coyote perseguindo o Papaléguas. Não quero cair mais nas minhas armadilhas e ficar frustrado. Mudei a minha linha de raciocínio. Eu tenho que atrair e criar as condições mais favoráveis para atingir meus objetivos. Sem truques ou trapaças, trabalhando o que for preciso até chegar ao resultado.

Um grande abraço,

Alecio Neto

Olha o foco aí gente!

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Para escrever este texto, eu tive que fechar os olhos e respirar umas três vezes para me acalmar. Fiquei com medo do telefone tocar, alguém entrar na sala para falar comigo. O telefone tocou e resisti em não atender. Não sei se era importante ou urgente, mas pensei comigo “Deve ser alguém cobrando alguma coisa. Então é urgente e não importante”.

Já fui adepto de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Eu era um multitarefas orgulhoso dos meus feitos. As pessoas ficavam admiradas e até com inveja. Meus chefes adoravam essa minha qualidade e despejavam mais e mais trabalho. Dividia meu tempo e atenção com todo mundo. Discutia jobs com três diretores de arte ao mesmo tempo. Depois colocava meu fone de ouvido, me trancava no meu mundo e começava a escrever.

Para a minha sorte, nessa época não tinha Whatsapp, nem Instagram, Snapchat e outros aplicativos. O Orkut começava a engatinhar e mal recebia e-mails de correntes e piadinhas. Mesmo assim, depois de um tempo a minha produtividade começou a cair. Eu escrevia, escrevia, escrevia e nada estava bom. Principalmente para mim. Passei a perceber que estava no modo “piloto automático”. Passava os olhos em todos os briefings, não perdia tempo buscando mais informações com o atendimento, discutia umas três ideias com o diretor de arte e, se ele estivesse ocupado, começava a desenvolver o conceito. Escrevia alguns títulos, transcrevia as informações do produto e serviço no texto (às vezes conseguia fazer algo criativo), mostrava para o meu dupla e partia para o próximo trabalho.

Conclusão: fazia tudo e fazia nada! Essa rotina acabou comigo. Perdi todo o amor que tinha pela minha profissão. Não queria saber de escrever mais nada. Fugi sem olhar para trás. Eu sei que podem dizer que sempre foi assim, que não temos mais prazos, que tudo muda tão rápido.

Hoje eu percebo que quando faço uma coisa de cada vez, o meu rendimento é outro. Encontro à solução mais rápido, não sofro por antecipação. As ideias fluem, consigo ver o que estou fazendo e o que preciso corrigir. Mesmo quando o prazo é apertado. O que estou falando não é novidade alguma, mas a gente esquece o que realmente importa. Deixamos de lado as prioridades e passamos a atender as necessidades mais urgentes.

Correr contra o tempo é a pior coisa a se fazer. Dificilmente ele perde. Todas as vezes que ganhamos dele, nós levamos como prêmio ansiedade, insatisfação, sentimentos negativos como pânico, raiva e tristeza. Sem contar os cabelos brancos (isto quando não começam a cair), rugas na idade errada, doenças e por aí vai.

Enfim, dá para fazer muitas coisas. Como diz o ditado “tudo ao seu tempo”. Se você tem meia hora para fazer, faça só aquilo. Mesmo que o telefone toque, alguém chame no Whatsapp, no Messenger do Face, a mão coce para ver o Instagram e até o colega que quer mostrar a foto do au-au.

Um grande abraço,

Alecio Neto

O copo

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Numa família muito pobre os pais tinham que trabalhar para garantir o sustento da família. O pai era um artesão respeitado, que dominava a arte de trabalhar com metais, vidro e pedras preciosas. A mãe era governanta de um nobre inglês e como seu marido era muito respeitada por todos pelo seu ótimo trabalho.

Eles eram felizes com o pouco que tinham e dividiam tudo com seus quatro filhos. Os mais velhos cuidavam dos menores. Inventavam brinquedos com que encontravam no quintal. O mais velho de todos, com nove anos, era muito responsável para a sua idade.

Robert aprendeu a cozinhar e a cuidar da casa e não tinha vergonha de suas tarefas. Ele era muito organizado, disciplinado e mantinha tudo em ordem. Seu irmão John, de sete anos, o apelidou de xerife. Os dois brigavam e logo faziam as pazes.

Depois de terminar suas tarefas, Robert e seus irmãos transformavam a casa em um castelo e sonhavam ter uma vida de rei. John sempre queria ser o rei e mandava seus irmãos menores cumprirem suas ordens. Os pequenos pediam ajuda de Robert que fazia o papel do bom cavaleiro que salvava os irmãos indefesos.

Num dia de inverno, todos tremiam de frio e estavam tristes por não poder brincar. Robert teve a ideia de fazer do simples almoço um banquete para que as crianças comessem fingindo que estavam no castelo.

Colocou na mesma a melhor toalha que sua mãe havia bordado. Tirou com cuidado do baú, pratos de porcelana e um jogo de copos que sua mãe ganhou de seus patrões. Eram tão bonitos que mereciam ficar expostos como obras de arte.

Todos sentaram à mesa animados com a novidade. Robert começou a servir a comida e John começou a fazer graça com seus irmãos. Robert se desconcentrou e deixou cair à panela na mesa. Ela bateu em um copo que foi ao chão e ficou em pedaços.

Robert ficou desesperado e começou a recolher os cacos. Justo nesta hora seu pai chegou mais cedo em casa. Os mais novos choravam assustados e John, com medo da reação do pai, foi logo contando o que havia acontecido colocando a culpa em Robert.

O filho mais velho chorava pelo erro cometido. Ele sentia-se culpado e arrependido de ter usado a louça tão valiosa para uma brincadeira sem sentido. Não estava com medo de apanhar, mas de perder a imagem de responsável que conquistou com tanto trabalho.

O pai não disse nada. Foi até Robert, abaixou e ajudou a recolher caco por caco. Enxugou as lágrimas do seu filho e disse para John cuidar das crianças. Os dois saíram e foram para a oficina de seu pai, nos fundos da casa.

O pai colocou o copo e os cacos sobre a mesa, virou para Robert e perguntou “O que você ia fazer com isto?”. Robert respirou fundo e disse “Eu ia mostrar para o senhor e a mamãe e pedir desculpas”, o menino voltou a chorar.

O silêncio tomou conta do ambiente. Robert não conseguia olhar para seu pai que fez outra pergunta “O que vamos fazer agora com este copo?”. Ainda de cabeça baixa Robert disse “Se eu pudesse, voltaria no tempo para conserta o que fiz”. O pai fez sinal para Robert se aproximar, o menino seguiu a ordem do pai com medo.

O pai abraçou o filho, colocou no colo e disse “O que está feito, está feito meu filho! Homens responsáveis, como você, não perdem muito tempo lamentando seus erros. Eles procuram consertar e aprender para não errar mais. Agora vamos juntar os cacos e fazer o melhor para consertar este copo”.

Os dois passaram a tarde colando peça por peça. O pai ensinou a Robert como manusear as ferramentas. Para colar os cacos, o pai derreteu um pouco de prata e ouro que havia guardado para uma ocasião especial.

No final, o copo estava restaurado com marcas de ouro e prata. Robert ficou frustrado com o resultado e com medo de sua mãe não gostar. O pai colocou o copo numa linda caixa de madeira e entregou a Robert.

Os dois voltaram para casa e Robert não conseguia disfarçar a sua tristeza. Ele escondeu atrás das costas a caixa com o copo. Antes mesmo de qualquer reação, o pai disse orgulhoso que o filho tinha um presente a dar para sua mãe.

Sem jeito, Robert entregou a caixa para sua mãe que ficou surpresa com o presente inesperado. Ao abrir, a mãe não esboçou reação alguma e Robert queria abrir a porta e fugir de casa.

Logo a seriedade deu lugar a um belo sorriso e brilho no olhar. A mãe tirou o copo da caixa e ficou admirando no ar. Ela estava encantada com o brilho do ouro e da prata nos remendos. Abraçou e beijou Robert sem parar. O menino ficou sem entender nada.

Para a mãe, não importava mais o erro cometido, mas sim o erro reparado. Toda mãe e pai orgulham-se dos filhos que assumem seus erros, aprendem e crescem com eles. As marcas que ficam na vida servem só para lembrar o trabalho e alegria de não ter que passar de novo pela mesma situação. Colocando-se no lugar do outro ao invés de julgar pela primeira impressão.